Jogar-se no mundo: uma conversa com Cristian Góes

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José Cristian Góes, jornalista há mais de 20 anos, nos conta um pouco sobre sua história e experiência na área. Em entrevista, fala sobre as mudanças, no decorrer do tempo, da atividade jornalística, como anda o seu mercado, a liberdade de expressão e o que está desenvolvendo atualmente, além de deixar alguns “conselhos” para quem pretender seguir a carreira.

“Acreditávamos que com as modernas tecnologias teríamos muito mais reportagens investigativas. Mas, ocorreu o contrário. O jornalismo ficou preguiçoso”.

Como era o curso de jornalismo na época em que fez a graduação, 1990 a 1994. O que mudou nos dias de hoje?

O curso, à época, refletia o jornalismo que se fazia em Sergipe. Muitas redações não tinham internet, a diagramação de jornais era manual, os poucos computadores eram máquinas de datilografia, os jornais sequer eram coloridos. Na faculdade, isso se espelhava: existia uma sala imensa com máquinas de datilografia, a gente usava uma régua de paica para diagramar, existia um pequeno laboratório para revelar fotos. Em resumo, era um mundo completamente analógico que, em se comparando ao contemporâneo, o jornalismo era outra atividade do que é hoje. Não estou dizendo que era melhor ou pior do que é hoje, mas diferente. De fato, a tecnologia on line provocou uma revolução na prática jornalística, no tempo e na forma do jornalismo, o que não significou e resultou necessariamente em qualidade. Por exemplo, acreditávamos que com as modernas tecnologias teríamos muito mais reportagens investigativas, apurações mais refinadas. Absolutamente isso não aconteceu. Ocorreu o contrário. Por esse exemplo, o jornalismo ficou preguiçoso, rendido ao release, distante das pessoas.

Como foi sua trajetória de carreira?

Entrei na faculdade em 1990. Fiz estágios na rádio e TV Aperipê e no jornal Cinform. Em 1993, já estava dando meus primeiros passos no jornalismo do Cinform. Quando me formei em 1994, estava trabalhando lá como jornalista. Sem ter condições de viver apenas com um trabalho/salário, em 1995, fui ser também assessor de Comunicação do Sintese – Sindicato dos Professores de Sergipe. Até o ano 2001, fiquei nos dois trabalhos e ainda fazia matérias nacionais para a revista Istoé e Istoé Dinheiro, onde tive um excelente aprendizado sobre o texto jornalístico. Em 2001, deixei o jornal e o sindicato e assumi a diretoria de Imprensa da Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Aracaju, atendendo um convite do jornalista Zé Andrade, secretário de Comunicação do prefeito Marcelo Déda. Três meses depois de assumir o cargo, Zé Andrade pede demissão, eu entreguei o cargo também, mas o prefeito pediu um tempo para encontrar outro secretário. O resultado é que fiquei interino e três meses depois eu assumia oficialmente como titular. Fiquei na prefeitura até 2003, quando fui assessorar a deputada estadual Ana Lúcia, recém-eleita. No ano seguinte, fui eleito presidente do Sindicato dos Jornalistas de Sergipe e diretor de Comunicação da CUT/SE. Em 2005 fui candidato a vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, onde perdemos a eleição. Nesse período também trabalhei no Jornal do Dia como repórter especial. Em 2007, deixei a assessoria da deputada e o jornal e passei numa seleção para assessoria de comunicação do Ministério Público Federal. Fiquei no MPF até 2008, quando passei no concurso público para jornalista do INSS. Fui trabalhar na comunicação institucional em Brasília. Na capital federal, deixei o INSS por um ano para assessorar o deputado federal Iran Barbosa. Retorno ao instituto e fui mandado ao Recife para assumir a comunicação do INSS em todo o Nordeste. Em 2011, peço minha transferência para o INSS em Aracaju. Em 2012, passo na seleção do Mestrado em Comunicação da UFS, tornando-me o primeiro mestre do curso. De licença do INSS, em fevereiro de 2014, já iniciava meus estudos no Doutorado em Comunicação na UFMG, em Belo Horizonte, onde devo ficar vinculado até fevereiro de 2018, quando espero defender a tese.

Como vê a liberdade de expressão em Sergipe, no Brasil, no mundo? É possível fazer jornalismo sem censura?

Estas são questões complexas. É preciso ter cuidado para não confundir liberdade de expressão e liberdade de imprensa. A imprensa até pode justificar sua ação pelo uso da liberdade de expressão, mas isso não garante à liberdade de expressão. Liberdade de imprensa se associa à liberdade de imprimir, transmitir, divulgar, ou seja, é liberdade de empresa. Já a liberdade de expressão é à livre manifestação do pensamento, da opinião, sem quaisquer interferências, porém, como tenho defendido, essa expressão para ser livre se atrela ao compromisso com a vida plena, a dignidade, o respeito, a solidariedade, o reconhecer a humanidade do outro. Isso implica dizer que jornalistas, empresas de comunicação e qualquer pessoa não podem se abraçar e se apoiar numa retórica de liberdade de expressão para atacar à vida, para defender pena de morte, preconceitos, racismos, etc., ou seja, isso ao meu juízo, não é liberdade de expressão, mas tão somente expressão, expressão de ódio, de intolerância. A palavra liberdade não surge gratuitamente ao lado da palavra expressão. Liberdade impõe à expressão um outro patamar de reflexão e ação. Outro aspecto fundamental é que a liberdade de expressão não é um troféu que você conquista e deixa tomando poeira na estante. Liberdade de expressão não é letra morta de lei. A liberdade de expressão é um algo em construção, em disputa permanente. Nesse aspecto, ela e a censura andam juntas medindo forças, mas estão sutilmente imbricadas. O jornalismo participa desse jogo e, em razão de suas redes de seleção e de seus interesses, acaba sendo mais uma manifestação de censuras (no plural mesmo) do que de liberdade. É difícil falar em liberdade de expressão em Sergipe, no Brasil e no mundo, porque são inúmeras as realidades. Penso que nos locais com maior participação social, com um bom nível de debate, com maior diversidade cultural, a tendência da liberdade de expressão ganha mais visibilização. Mas em cidades menores, ainda baseadas nas lógicas coloniais, onde as relações de poder são tratadas na sala principal da Casa-Grande, a censura é naturalizada, é regra e, pior, às vezes confundida como liberdade.

Além de estar fazendo doutorado, como tem desenvolvido seu trabalho?

O doutorado me toma muito tempo com leituras, reflexões aprofundadas e produção de textos. Mesmo assim, dou aulas da disciplina “Mídia e Direitos Humanos”, em um curso de especialização em Direitos Humanos na Faculdade Pio Décimo. Em meio isso, perco muito tempo ainda com as ações judiciais que respondo por conta o texto ficcional “Eu, o coronel em mim”. Audiência, recursos, etc. Mas, nesse caso, estou paralelamente reunindo todas as documentações, textos, fotos, vídeos desses processos para lançar um site contando toda essa história para que não se caia no esquecimento. Além disso, esse material todo deve se converter num livro, também nessa luta pela memória.

Como está, atualmente, o mercado de trabalho para o profissional do jornalismo?

Pensar o mercado exige compreender um fluxo que não se estanca nunca. Quando me formei, por exemplo, o jornalista tinha um local de trabalho definido: jornais, rádio e TVs. Logo depois, as assessorias de comunicação passaram a ser amplamente ocupadas também. Hoje, esses lugares ainda existem, apesar de se contratar cada vez menos e de explorar mais, mas eles não são os únicos. Os jovens jornalistas estão percebendo que são formando em comunicação e isso permite enxergar a capilaridade das ações. Outro aspecto é que se começa a perceber que uma única formação talvez não amplie as possibilidades, e aí se busca outras formações. Conheço jovens jornalistas que estão atuando com clipping on line, cinema, desenho em quadrinhos, jornais de bairro, rádios comunitárias, intervenções de arte urbanas, comunicação em comunidades tradicionais, etc. E penso que isso é excelente.

Deixe um recado para quem está entrando na carreira.

Que difícil isso, pois podem ter vários ângulos nessa resposta. Apresento seis sugestões sem ordem ou hierarquia de importância: 1) jogue-se no mundo, estamos implicados nele, ou seja, seja curioso, não se satisfaça com respostas prontas e acabadas, não aceite a versão oficial, não diga amém, apure, apure, apure e depois apure mais ainda; 2) compreenda-se como um trabalhador junto a outros trabalhadores, isso implica dizer que somos participantes da mesma classe trabalhadora, ou seja, salários melhores, boas condições de trabalho, a busca por uma vida digna não é tarefa individual, mas ação coletiva contra o capital, que não descansa um segundo em lucrar com a maior exploração e retirada de direitos dos trabalhadores; 3) compreenda-se em meio a uma intensa disputa pela liberdade de expressão contra a censura. O jornalista é chamado a tomar parte, ser parcial em favor da liberdade de expressão, da promoção da vida humana digna, não compactuando com nenhuma ação que reforce, estimule e promova as censuras; 4) busque exercer a humildade-ética, não se encantando com um falso poder, com os mimos que recebe. O jornalista não é dono da verdade, não detém o saber e muito menos poder; 5) saber que o jornalismo não é mais exclusivo das empresas jornalísticas, ou seja, exercer o jornalismo é muito mais que trabalhar em empresas de comunicação (aliás, talvez, nessas empresas o que menos se tem é jornalismo). Jornalismo é uma atividade social ampla, complexa e ao abraça-se com a liberdade de expressão, ganha uma dimensão transformativa e libertária; 6) estudar sempre, manter um processo de formação continuada firme, não só com especialização, mestrado, doutorado, mas fazendo outros cursos livres, como filosofia, história, geografia, artes, ciências sociais, letras, ciência política, etc, participando de eventos de formação não formais, montando e participando de grupos de estudo.

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